Malefícios dos treinamentos precoces de sono

Tenho recebido muitas mensagens com um tema em comum: sono infantil. Mães procurando saber se o comportamento do filho é normal, querendo minha opinião sobre métodos de treinamento de diferentes autores de bestsellers, pedindo post sobre as ofertas de consultorias de sono que parecem brotar de todos os lados, perguntando o que a ciência diz […]

Tenho recebido muitas mensagens com um tema em comum: sono infantil. Mães procurando saber se o comportamento do filho é normal, querendo minha opinião sobre métodos de treinamento de diferentes autores de bestsellers, pedindo post sobre as ofertas de consultorias de sono que parecem brotar de todos os lados, perguntando o que a ciência diz sobre o assunto e se existe respaldo para defender a amamentação em livre demanda, a criação com apego seguro, e a não interferência nos processos fisiológicos do ser humano no início da vida extrauterina.

Quem me acompanha, sabe que este é um assunto recorrente por aqui e que já publiquei um resumo chamado 14 verdades sobre o sono infantil que ninguém te conta. Se ainda não leu, clique aqui: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10160749883570122&id=901475121

O assunto é muito extenso e é impossível se posicionar sem ganhar desafetos. No final, a decisão deve ser tomada por cada família no seu contexto. Meu objetivo aqui não é julgar, mas informar, para que pelo menos os pais possam fazer escolhas conscientes dos riscos que assumem.

Vou responder com base numa revisão sistemática que incluiu todos os estudos realizados entre 1993 e 2013 e examinou os efeitos do treinamento do sono em crianças com menos de seis meses de vida. Um total de 43 artigos preencheram o critério de inclusão.

O resumo a seguir é de Tracy Cassels, PhD, com minha tradução.

Apenas um lembrete, caso as pessoas não saibam, muitos médicos, especialistas em sono, consultores do sono e clínicas começam a promover o treinamento do sono no terceiro ou quarto mês. Alguns pais começam ainda mais cedo. E quando aqueles de nós falam contra sua promoção, argumentando que as crianças estão em um período sensível naquele ponto (o quarto trimestre, por assim dizer) ou têm ritmos circadianos naturalmente em desenvolvimento com os quais não queremos mexer, ou que esse tipo de treinamento pode prejudicar o sucesso da amamentação, somos informados de que cabe a nós provar o risco de dano se não queremos a promoção destes métodos. Bem… aqui está a prova.

Várias técnicas de treinamento do sono estão incluídas na revisão. Os métodos de deixar chorar, assim como os que dissociam a alimentação do sono e do toque (ou seja, nunca deixar o bebê adormecer no seio ou nos braços, ensinando a criança a se “autodirigir” sem contato físico ou alimento), os que agendam o sono do bebê esteja ele cansado ou não, diminuindo a estimulação diurna.

Uma das revelações mais perturbadoras é que os artigos que promovem o treinamento do sono nos primeiros meses não têm apoio científico para isso. O que muitos deles descobriram foi simplesmente que o sono se consolida rapidamente durante os primeiros quatro meses pós-parto e que, em virtude disso, supõe-se que seja uma evidência de que o treinamento do sono evitará problemas posteriores nos ciclos de sono-vigília para bebês. Mas quando se observou na revisão os resultados para o bebê e a mãe, as conclusões foram:

🔸 O treinamento do sono nas primeiras 12 semanas resulta em períodos de sono mais longos, mas não reduz o choro do bebê, que é a principal preocupação dos pais que procuram o treinamento do sono.

🔸 O aumento dos despertares noturnos em bebês amamentados não foi associado a nenhum problema comportamental ou de sono a longo prazo, apesar de muitos sugerirem problemas de longo prazo associados ao despertar noturno infantil.

🔸 Bebês que apresentam um despertar noturno ou outros distúrbios do sono aos seis meses (sem intervenção) têm uma saúde mental completamente normal na idade adulta jovem, ou seja, aqueles que sugerem um vínculo com problemas posteriores não têm base para isso.

🔸 Para aqueles que se preocupam com as mães com depressão, o treinamento do sono antes de seis meses não foi eficiente para diminuir a depressão materna. E, de fato, os problemas de sono da mãe não se correlacionam com o sono do bebê, mas são devidos à depressão, não à criança.

🔸 De fato, foi a depressão materna que provocou despertares infantis mais longos à noite (embora não a freqüência), e não o contrário.

🔸 As mães que amamentam acordam mais para alimentar os bebês, mas relatam melhor qualidade de sono e menores taxas de depressão pós-parto.

🔸 Os poucos estudos que relataram uma diminuição na depressão materna devido a intervenções, foram na verdade intervenções bem complexas com muitos elementos (incluindo apoio à mãe) de modo que a diminuição da depressão não pode ser atribuída ao treinamento do sono.

🔸 A dissociação entre alimentação e sono em crianças menores de seis meses foi associada ao aumento do fracasso na amamentação.

🔸 O sono e os cuidados rígidos e programados nos primeiros meses estão associados a três vezes o risco de problemas comportamentais aos seis meses e a duas vezes a quantidade de choro que os bebês que receberam cuidados sempre que pediam.

🔸 Colocar uma criança em um quarto escuro durante o dia sob o pretexto de que ela precisa dormir ou chorar por estar “superestimulada” ou “cansada demais” na verdade inibe a consolidação do sono noturno (significando mais despertares noturnos) e aumenta o risco de SIDS. Também reduz a capacidade da mãe de desenvolver um bom biorritmo diurno com o bebê, o que reduz a saúde mental materna.

🔸 O foco das intervenções do sono – ou seja, a quantidade de tempo que o bebê dormiu, o intervalo de tempo entre as sonecas, o número de despertares, etc. – realmente aumenta a ansiedade dos pais. Também pode resultar em pior sono para o bebê.

Talvez o mais interessante de tudo, embora não seja um resultado, a maioria das famílias não relata qualquer problema com o sono infantil nos primeiros seis meses. A maioria das pessoas está sendo instruída a usar técnicas comportamentais como medidas preventivas para problemas posteriores. Apenas não há evidências de que isso funcione e, como acabamos de ler, na verdade, pode representar mais problemas para a família tanto a curto como a médio prazo. E nenhum desses estudos sequer analisou quaisquer problemas sociais ou emocionais de mais longo prazo que possam surgir do treinamento do sono tão precoce, portanto, a questão de qual é o risco de danos a longo prazo ainda permanece.

O que fazer? Como os autores sugerem aqui, os tratamentos precisam ser holísticos. Na mente desses autores e pesquisadores, o tratamento precoce de qualquer problema deve evitar o treinamento do sono e quaisquer técnicas behavioristas, dando lugar à orientação sobre cuidados baseados nas necessidades do bebê, sincronia entre pais e filhos, biorritmo diurno saudável e abordagem da ansiedade dos pais sobre o sono e o choro normal. Além disso, as dificuldades de alimentação devem ser examinadas como uma das causas potenciais do comportamento agitado do bebê, portanto, os pais devem receber toda a assistência necessária para resolver qualquer problema alimentar.

Não é triste que precisássemos de 20 anos de estudos para provar o risco de danos? Não poderíamos ter evitado a promoção desses métodos e salvado essas famílias da ansiedade, estresse e problemas que vieram com a promoção de algo que não se pode provar que não cause nenhum dano, apesar de contrariar todas as normas biológicas?

Por Gabrielle Costa de Gimenez

Fotografia de Gaby Riva

Referências:
Douglas PS, Hill PS.  Behavioral sleep interventions in the first six months of life do not improve outcomes for mothers or infants: a systematic review.  J Dev Behav Pediatr 2013; 34: 497-507.

Texto original:
http://evolutionaryparenting.com/proving-the-harm-in-early-sleep-training/